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Ghosting: que fantasma é esse que surge nas relações?

Palavras-chave: ghosting; relacionamentos

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 02 de dezembro de 2021


Se você assiste a filmes e seriados dos EUA, já pode ter ouvido que alguém ‘ghost’ outra pessoa.

Muitos sabem que ghost significa fantasma, mas – não tenha medo – a palavra vem sendo usada com outra conotação.

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O que significa GHOST alguém?

Veja como o Cambridge Dictionary descreve a ação de GHOSTING:

A WAY OF ENDING A RELATIONSHIP WITH SOMEONE SUDDENLY BY STOPPING ALL COMMUNICATION WITH THEM

Em tradução livre, ghosting é uma forma de terminar um relacionamento com alguém de modo repentino, simplesmente parando de se comunicar.

O termo é mais usado no mundo dos relacionamentos. Porém, tem se tornado comum em outras interações sociais, como amizades.

De modo popular, podemos dizer que o ghosting significa ignorar, ‘deixar no vácuo’.


Ghosting e relacionamentos de curta duração

Para algumas pessoas, o ghosting pode parecer o meio mais fácil de terminar um relacionamento, uma vez que evita as discussões e explicações típicas das conversas de fim de relação. Na era digital, em que a comunicação é quase sempre permeada pela tecnologia, muitas vezes é possível bloquear, desfazer amizade, deixar de seguir etc., de modo que a pessoa não saiba sequer onde procurar você.

O ghosting é mais comum em relacionamentos de curto prazo, nos quais há baixo nível de comprometimento e pouca proximidade (LeFebvre et al., 2019). 

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Motivações para o ghosting vão de conveniência à segurança

A maioria das pessoas desaprova o ghosting como forma de terminar um relacionamento, mas, segundo estimativas realizadas nos EUA, cerca de 60 a 70% dos jovens adultos afirmam que já tiveram esse comportamento (LeFebvre et al., 2019; Timmermans et al., 2020).

Por quê?

Conveniência: Ter conversas mais diretas para terminar um relacionamento pode ser desagradável, requer disponibilidade afetiva, tempo, e capacidade de gerenciar, tanto as próprias emoções, quanto as emoções do outro.

Perda de atração: Relações de curta duração podem começar intensas, mas perder a energia rapidamente. Pessoas optam pelo ghosting por tédio, perda de interesse e diminuição da atração romântica. Sair sem muito esforço pode parecer uma forma atraente para terminar o relacionamento.

Interações indesejáveis: O ghosting é comum em situações em que um novo parceiro de relacionamento faz algo considerado inaceitável. O sentimento, então. muda de atração para repulsa ou raiva. Nesses casos, a ideia de uma conversa direta para encerrar a relação pode parecer não fazer sentido.

Segurança: Pode ocorrer de uma pessoa entrar em um relacionamento e rapidamente perceber no outro comportamentos estranhos ou assustadores. Então, terminar a comunicação abruptamente pode ser uma estratégia para garantir segurança.

As razões por trás do ghosting são variadas. Porém, é importante dizer que nem todas as pessoas estão dispostas a desfazer uma relação sem qualquer justificativa.


Existem pessoas mais propensas ao ghosting?

Narcisismo, maquiavelismo e psicopatia

Pesquisas recentes do Dr. Peter Jonason e colegas (2021) sugerem que a aceitabilidade do ghosting está ligada a 3 características principais.

Essa tríade é formada por narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (Jones e Paulhus, 2014).

O narcisismo se refere a um senso demasiadamente inflado de si mesmo e uma desconsideração do outro. O maquiavelismo se caracteriza pela tendência à manipulação por meio de estratégias sociais. A psicopatia reflete insensibilidade e falta de empatia.

Em um estudo com 341 participantes, pessoas com níveis mais elevados desses traços se mostraram mais dispostas a achar o ghosting algo aceitável. Essa tendência revelou sua maior consistência no subgrupo formado por homens com características narcisistas.

Esse achado é teoricamente consistente. De fato, é esperado que pessoas com traços de narcisismo, maquiavelismo ou psicopatia sejam mais autocentradas e menos empáticas. Consequentemente, são menos perturbáveis pela perspectiva de ferir os sentimentos de outra pessoa.

Visões sobre o amor: fatalismo vs. escolha

A pesquisa sobre o assunto ainda está no início, mas também há alguma sugestão de que ter uma visão mais “fatalista” sobre o amor (ou seja, acreditar em almas gêmeas, ou que certas relações estão destinadas a dar certo ou errado) está associada à maior aceitação do ghosting, quando comparada a uma visão de que relacionamentos são construídos e dependem de esforço. (Freedman et al., 2019).


Nem todo ghosting é mal-intencionado

O ghosting pode ter efeitos adversos sobre a pessoa abandonada, e está associado a sentimentos de rejeição e raiva (Timmermans et al., 2020).

Apesar disso, algumas pessoas apenas abandonam uma relação porque querem evitar o desconfortável “eu não gosto mais de você” / “eu não quero mais ficar com você” (Timmermans et al., 2020).

Em outras palavras, às vezes, quem pratica o ghosting acredita que está sendo cuidadoso.

Mas será que isso justifica?


Referências

Jones, D. N., & Paulhus, D. L. (2014). Introducing the short dark triad (SD3) a brief measure of dark personality traits. Assessment, 21, 28-41.

LeFebvre, L. E., Allen, M., Rasner, R. D., Garstad, S., Wilms, A., & Parrish, C. (2019). Ghosting in emerging adults’ romantic relationships: The digital dissolution disappearance strategy. Imagination, Cognition and Personality, 39, 125-150.

Jonason, P. K., Kaźmierczak, I., Campos, A. C., & Davis, M. D. (2021). Leaving without a word: Ghosting and the Dark Triad traits. Acta Psychologica, Advanced online publication.


RECADO PARA VOCÊ

A pandemia tem afetado o bem-estar de muita gente.

Ansiedade, estresse, medo e pessimismo estão entre os incômodos mais comuns.

Estudos preveem que esses sintomas podem trazer consequências negativas até muito tempo depois que a pandemia terminar.

Portanto, se você não estiver se sentindo bem, procure apoio psicológico.

Fale com o psicólogo Rodrigo Giannangelo pelo Whatsapp:


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