Artigos

Por que queremos quem não nos quer? Psicologia da paixão não correspondida

Palavras-chave: paixão não correspondida; dissonância cognitiva; dopamina; limerência

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 06 de dezembro de 2021


paixão não correspondida
Cena do filme ‘500 dias com ela’

Você já deve ter visto uma pessoa desenvolver uma paixão não correspondida irresistível, daquelas em que a pessoa permanece absorta em uma fantasia, interpretando tendenciosamente certos sinais para se convencer de que há esperança . Em muitos desses casos, a pessoa apaixonada nem admite seus sentimentos a seu objeto de desejo. O medo da rejeição a deixa em um vazio de devaneios e incertezas.

Talvez você mesmo tenha passado por isso. Sua mente pode ter sido consumida pela irracionalidade da paixão. Dias, semanas, meses (anos?) podem se passar enquanto você permanece cego em sua fantasia, pouco disposto a aceitar a verdade – a outra parte não tem o mesmo sentimento.

O objetivo deste post não é oferecer uma solução mágica, mas entender por que as pessoas se entregam a essas situações, explorando três conceitos psicológicos. Entender esses conceitos pode ajudar a gerenciar melhor suas atitudes em relação à paixão, além de lhe permitir compreender algumas inseguranças que costumam estar envolvidas.

No âmbito da psique humana, admitir a fraqueza é frequentemente o primeiro passo para construir a força. Mais que isso, é algo que nos encoraja a considerar o caráter limitado de nossa possibilidade de controle e permite perdoar a nós mesmos, em vez de nos levar à autopercepção negativa, que corrói nosso senso de valor e autoestima.

Estes são os três conceitos sobre os quais quero falar:


1. Dissonância Cognitiva – A agonia da tensão psicológica

Você já se pegou tentando decifrar o comportamento de alguém que lhe interessa amorosamente, e acabou com uma tensão mental desconfortável?

Na Psicologia, esse sentimento é chamado de Dissonância Cognitiva — o incômodo psicológico experimentado quando se tem duas ou mais crenças ou ideias contraditórias entre si (Festinger, 1957).

No contexto dos relacionamentos, experimentamos dissonância cognitiva quando tentamos    conciliar sinais diferentes – comportamentos que indicam que uma pessoa gosta de nós vs. comportamentos que indicam que não gosta. Um exemplo é quando vocês dois têm uma conversa bem íntima e quente, mas no encontro seguinte a outra pessoa se afasta e conversa friamente. Os sinais opostos nos causam uma sensação psicológica de desconforto.

Quando apresentada a comportamentos conflitantes, sua mente tem três métodos para tentar resolver a tensão psicológica:

  • Alterar a crença – por exemplo, decidir que a pessoa não gosta de você, ou que não vale a pena investir;
  • Obter mais informações – por exemplo, buscar um novo encontro, pedir a opinião de amigos, analisar as mensagens trocadas etc., algo que possa influenciá-lo em uma ou outra direção;
  • Reduzir a importância da situação – por exemplo, optar por focar em outras partes da sua vida, mais estáveis e consistentes.
paixão não correspondida

Muitas pessoas escolhem a segunda opção, o que aumenta significativamente a dificuldade de seguir em frente. Em vez de tomar uma decisão e se concentrar em outras coisas, decidem procurar mais informações. Então, podem entrar em um confronto “exigindo” da outra pessoa uma explicação para seus sinais contraditórios, ou mergulhar ainda mais profundamente numa análise das últimas interações entre elas.

“Exigir explicação” raramente é útil, pois a outra pessoa pode se sentir pressionada, alegar que nem sabe do que você está falando e/ou sugerir que você está exagerando/ confundindo as coisas. Se isso é verdade ou não, é irrelevante – você perdeu tempo. E você pode estar apenas tentando obter respostas de alguém que não se importa tanto quanto você. 

Agora, se escolher dedicar-se a analisar as interações, você vai passar mais tempo pensando nessa pessoa – e, quanto mais tempo passamos pensando em alguém, mais sentimento desenvolvemos por ela.

O resultado é previsível: você entra em um loop de dissecar cuidadosamente todos os seus encontros e começa a projetar neles o que você QUER que seja verdade. Começa a confundir um sorriso qualquer com um sinal de atração.

Um mecanismo retroalimentado

Nossa necessidade constante de resolver a dissonância cognitiva alimenta repetidamente a busca por evidências. Queremos encontrar razões e provas de que alguém gosta de nós – mesmo quando não gosta. Quanto mais fazemos isso, mais nos entrincheiramos na fantasia.

Com o tempo, começamos a achar que nosso esforço é indicação de nossa imensa atração. Pelo contrário, suas tentativas de reduzir a dissonância cognitiva criaram uma profecia autorrealizável…

Em resumo, as pessoas podem sofrem muito tempo porque se recusam a confrontar a situação diretamente. A dica aqui é: busque informações claras e indubitáveis. Então, você terá informação para mudar sua crença (Opção 1) ou reduzir a importância e focar em outras coisas (Opção 3), evitando que uma paixão não correspondida se desenvolva.


2. A caça à dopamina

A rotina pode ser maçante. A incerteza, por outro lado, tem algo de atraente, de sexy.

Os altos e baixos, a montanha-russa de emoções é componente das paixões não correspondidas e mal resolvidas.

Já sabemos que a Dissonância Cognitiva pode desempenhar um papel importante, em especial quando estamos inseguros em relação ao que a outra pessoa sente a nosso respeito.

Neste ponto, vamos refletir sobre outra questão. Por que a imprevisibilidade e a incerteza são tão atraentes?

A resposta que vamos oferecer aqui é: dopamina, um neurotransmissor que aumenta nossa sensação de prazer e motivação.

O mecanismo de recompensa movido a dopamina desencadeia, em nível cerebral, uma deliciosa euforia, e o desejo de experimentá-la repetidamente, quando estamos atrás de um “crush”. 

A dopamina nos dá a capacidade de perceber recompensas, agir na direção delas, e gera sentimentos prazerosos em resposta. Embora isso nos motive positivamente a agir, também pode nos expor a comportamentos excessivos e viciantes em busca de prazer.

O Professor da Universidade de Standford, Robert Sapolsky, estudou exaustivamente os efeitos dessa substância. Sua pesquisa traz duas descobertas bastante relevantes para nosso objetivo:

  • Os níveis de dopamina em humanos aumentam em antecipação à recompensa, e não apenas ao recebê-la;
  • Os níveis de dopamina são mais altos quando a incerteza é a maior possível.

Ou seja, o ato de “perseguir” uma paixão é, por si só, suficiente para gerar uma sensação de bem-estar, principalmente quando não temos certeza do resultado. Em outros termos, “ficar atrás” de alguém que transmite um equilíbrio suficiente de sinais contraditórios (de interesse e de não interesse) pode ser viciante – mesmo que você nunca atinja o objetivo.     

A dopamina é incrivelmente poderosa e gratificante para os humanos. Quer você goste ou não, o crush que conseguir obter o equilíbrio certo pode deixá-lo mais e mais apaixonado, com uma mistura de prazer e angústia.

Em outras palavras, a dopamina costuma estar por trás de toda paixão não correspondida.


3. Limerência – a obsessão pela reciprocidade

Às vezes, você pode se sentir tomado por uma paixão tão intensa, que realmente acredita que esse evento será único em sua vida. Em sua mente, é uma questão de destino; não importa o que você faça, não consegue parar de pensar naquela pessoa. Ao longo do dia, sua mente vagueia, e cada situação enfrentada lhe faz encontrar uma maneira de relacioná-la com o objeto de seu desejo. É como se sua mente tivesse sido hackeada, e seus pensamentos ficassem fora do seu controle.

Acima de tudo, você quer que a outra pessoa sinta o mesmo que você.

É assim que acontece a limerência.

paixão não correspondida

Limerência (tradução do inglês ‘limerence’) é uma palavra ainda pouco usada em nosso idioma. O termo foi introduzido na década de 1960, pela psicóloga Dorothy Tennov, em seu livro “Love and Limerence: The Experience Of Being In Love”.

Nessa obra, ela o definiu como um estado cognitivo e emocional involuntário, que resulta de um desejo romântico por outra pessoa, combinado por uma intensa, avassaladora e obsessiva necessidade de se ter o sentimento correspondido.

Há pelo menos quatro sinais importantes que indicam a limerência:

  1. Você pensa continuamente na pessoa, incapaz de se concentrar nas atividades diárias sem associá-las a ela;
  2. Seu principal desejo é a reciprocidade de sentimentos, mais que intimidade ou uma relação sexual;
  3. Você está mais preocupado em conquistar a pessoa do que com a felicidade ou o bem-estar dela;
  4. Você está analisando compulsivamente os comportamentos da pessoa e tirando conclusões; por exemplo, examinando por vários minutos uma simples mensagem no WhatsApp.

Quem vive a limerência pode encarar a rejeição como mero desafio a ser superado.

Você pode estar achando que isso tudo soa ridículo. Uma das descobertas mais interessantes na pesquisa de Tennov foi que as pessoas que nunca tinham experimentado a limerência eram incapazes de aceitar sua existência. Ou seja, a ideia de estar constantemente preocupado com uma pessoa e com a reciprocidade de sentimentos pode parecer risível para alguém que não passou por uma paixão não correspondida.

No entanto, a pesquisa de Tennov, na década de 1970, descobriu um número surpreendente de pessoas que já haviam experimentarado os sintomas de limerência. Um dos casos descritos pela autora é o de um homem que sustentou uma paixão não correspondida por uma colega de trabalho durante nove anos. Ele tinha preenchido quarenta cadernos e milhares de fitas cassete de áudio com detalhes de como ela parecia, se ela sorriu ou falou com ele, e outros detalhes minuciosos que só ele poderia apreciar. Sua distração levou a um fraco desempenho profissional, rebaixamentos de posto e, finalmente, à demissão.

paixão não correspondida

Conclusão

Abordamos três conceitos psicológicos que ajudam a explicar por que os humanos podem se dedicar a uma paixão não correspondida e até mesmo desenvolver uma obsessão romântica.

Esses conceitos oferecem uma compreensão básica de algumas vulnerabilidades psicológicas que podem ser estimuladas por comportamentos simples, como “fazer-se de difícil” ou enviar sinais contraditórios.

Seu objetivo é entender a si mesmo e detectar quando pode estar sendo vítima de alguma das ideias discutidas acima. Somos fortemente influenciados por nossas emoções.

Porém, quando você se dedica a viver sua melhor vida possível, se ocupa de assuntos que evitam as distrações que fragilizam.

E, o melhor de tudo, quanto mais você diversifica seus interesses e atividades, mais atraente se torna. 😉


RECADO PARA VOCÊ

A pandemia tem afetado o bem-estar de muita gente.

Ansiedade, estresse, medo e pessimismo estão entre os incômodos mais comuns.

Estudos preveem que esses sintomas podem trazer consequências negativas até muito tempo depois que a pandemia terminar.

Portanto, se você não estiver se sentindo bem, procure apoio psicológico.

Fale com o psicólogo Rodrigo Giannangelo pelo Whatsapp:


VEJA TAMBÉM

https://rgpsicologia.com/

Deixe uma resposta