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Atenção plena: por que temos tanta dificuldade de viver no presente?

Palavras-chave: atenção plena; mindfulness

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 11 de janeiro de 2022


Muitas vezes digo a meus pacientes que a ansiedade é um problema temporal: acomete quem tenta sair do presente e saltar em direção ao futuro. De modo semelhante, podemos dizer que o depressivo tem uma questão com o tempo. Nele, porém, a ânsia é pelo passado, dimensão que deseja compulsivamente reviver, seja para consertar (no caso de vivências que foram desagradáveis), seja para aproveitar novamente (no caso de vivências que foram agradáveis).

Enquanto a humanidade não inventar uma máquina do tempo, ambas as empreitadas estarão fadadas ao fracasso. Passado e futuro são dimensões existenciais que só podemos acessar no próprio presente – o passado, pela memória, o futuro, pela imaginação.

atenção plena

A busca por um tempo diferente do presente traz a sensação de cair num limbo existencial – um não ser/estar em tempo algum.

Porém, viver o (e no) momento é algo mais fácil de dizer do que fazer. De fato, embora soe óbvio e fácil, para muitos de nós é realmente muito difícil. Nem sempre viver o momento é algo que acontece organicamente.


ATENÇÃO PLENA

Diversos autores têm se utilizado do conceito de atenção plena para se referir a este “viver o momento” a que me referi acima. O livro ‘Where you go, there you are’, do médico e pesquisador Jon Kabat-Zinn, define a atenção plena como “prestar atenção de um modo particular: intencionalmente, no momento presente, e sem julgamento” (em tradução livre). Essa definição de atenção plena é amplamente utilizada em pesquisas, e destaca exatamente o que torna o estar presente tão difícil.

Estar presente requer um reconhecimento intencional (proposital), mas não forçado, do momento vivido. Requer estar disponível a cada momento da vida como ele é, não como desejamos ou achamos que ele pode ou deve ser. E esse é um equilíbrio difícil de alcançar. 

Existem muitas razões pelas quais essa “atenção desatenta” é tão difícil de encontrar, mas algumas das mais comuns são:

  • Você não está acostumado a desacelerar e permitir que sua mente renuncie à produtividade;
  • Você deixa pequenas coisas se tornarem grandes e elas lhe consomem mais energia mental do que poderiam;
  • Você antecipa o fim de um “bom” momento antes que ele acabe, deixando a ansiedade interferir no seu apreço pelo presente.

Controlar as emoções que levam a qualquer dessas razões listadas é a parte intencional / proposital do estar presente. Ao contrário da crença popular, ter a intenção de estar presente não significa não fazer nada, ou apenas fazer coisas que você gosta; na verdade, um estudo de 2016 descobriu que elevar o nível de estresse pode até melhorar a atenção plena, devido ao nível de consciência que eventos estressantes exigem (Nezlek et al., 2016).

Em vez disso, estar propositalmente presente não é uma questão de buscar o momento perfeito para apreciar o momento atual, mas procurar reconhecer todos os momentos, inclusive os “imperfeitos”. É preciso prática, como qualquer bom hábito.

atenção plena

PRÁTICAS DE ATENÇÃO PLENA

Existem muitas maneiras de se ajudar a se sentir mais presente através de práticas que impulsionam a atenção plena. Pesquisas mostram que atividades como meditação, atividade física e psicoterapia podem ajudá-lo a se sentir mais consciente e mais presente no momento (Xia et al., 2019).

Focar seu estar presente em momentos simples e cotidianos é importante para o desenvolvimento da atenção plena.

Um fato que todos aprendemos à medida que amadurecemos é que grande parte da vida -talvez a maior parte dela – é ocupada por rotinas e responsabilidades. Todos os dias, nos deparamos com obrigações e momentos desagradáveis, com bons momentos sendo polvilhados de forma tão escassa que desejamos poder agarrá-los em vez de deixá-los passar por nós apressadamente, como eles costumam fazer. 

Assim, em vez de esperar por raros oásis de alegria, a escolha pela atenção plena é uma oportunidade de se sentir mais vivo.

Aliás, esperar para aproveitar a vida apenas quando os momentos são perfeitos é a razão pela qual você tem a impressão de que esses “momentos perfeitos” (férias, por exemplo) passam rápido demais. Estar presente não deve ser uma recompensa que se alcança ao fim de uma semana agitada, ou quando as responsabilidades da vida milagrosamente dão descanso por algum tempo.

Estar presente é o resultado de uma escolha consciente, e de um estado mental específico. É a escolha diária de olhar ao seu redor e tornar sua existência intencional, é abrir-se ao mundo em qualquer uma das infinitas formas como ele pode se apresentar.

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Referências

Kabat-Zinn, Jon. (2016) “Part One: The Bloom of the Present Moment.” Wherever You Go, There You Are: Mindfulness Meditation for Everyday Life. Piatkus, London.

Nezlek, J. B., Holas, P., Rusanowska, M., & Krejtz, I. (2016). Being present in the moment: Event-level relationships between mindfulness and stress, positivity, and importance. Personality and Individual Differences, 93, 1-5. Doi:10.1016

Xia, T., Hu, H., Seritan, A. L., & Eisendrath, S. (2019). The Many Roads to Mindfulness: A Review of Nonmindfulness-Based Interventions that Increase Mindfulness. The Journal of Alternative and Complementary Medicine, 25(9), 874-889. doi:10.1089


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