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Autoimagem: que nota você dá para sua aparência?

Palavras-chave: autoimagem; beleza; atratividade; aparência

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 24 de janeiro de 2022


Você acha que consegue se ver precisamente? Dê uma nota para sua atratividade, de 0 a 10.

Para falar desse assunto, primeiro precisamos entender que nossa percepção não é uma representação exata do mundo. Nós sempre embutimos nossa experiência de vida, nossos conceitos e preconceitos, nossas expectativas em relação àquilo, de modo que o resultado percebido é algo, pelo menos em parte, CRIADO POR NÓS.

Ou seja, aquilo que nos parece óbvio é, na verdade, uma invenção, feita a partir da mistura entre o mundo exterior (o ‘objeto’) e nosso mundo interior.

Para entender a autoimagem

Falando em um nível mais simples, nossa percepção depende de coisas como motivação e humor.

Se nos oferecerem um pedaço de pão logo depois de comermos uma feijoada completa, certamente vamos recusar (alguém talvez peça: “tire isso da minha frente!”). Porém, se alguém fizer a mesma oferta quando estamos em jejum o dia inteiro, aquele pão vai nos parecer o melhor alimento do planeta.

Em um nível mais complexo, algumas pessoas, sob efeito de transe hipnótico e instruções de um hipnotizador experiente, podem enxergar nitidamente o rosto de uma pessoa famosa ao olhar para o rosto de um amigo.

Em uma ou outra das situações é fácil compreender que: 1. fabricamos nossa própria realidade, e 2. somos tão responsáveis por nossa percepção quanto o modo como as coisas são “na verdade”.

Então, de que forma isso ocorre quando olhamos para nós mesmos?

AUTOIMAGEM

O que influencia mais diretamente a percepção?

Vamos focar nas coisas que podem nos afetar cotidianamente sem que percebamos – o que significa que acreditamos no que vemos, mesmo que estejamos criando uma parte dessa realidade.

Motivação

Vemos as coisas como estamos motivados a vê-las.

Já viu uma pessoa de aparência mediana de repente parecer muito atraente? Talvez você tenha descoberto que há afinidades raras entre vocês, ou que a conversa flui de uma maneira inesperadamente agradável. Então, quando o relacionamento termina, um tempo depois, você passa a ver aquela pessoa sem a mesma motivação, e começa a se perguntar onde estava com a cabeça…

É assim que a motivação altera a forma como vemos as coisas. Se formos motivados pela fome, aquele pedaço de pão vai ficar apetitoso. Se estamos com o estômago cheio, pode parecer repulsivo. É também por isso que vemos o que queremos ver.

Humor

Tendemos a ver as coisas melhor se elas espelham nosso próprio humor (ou estado emocional), e inconscientemente filtramos o resto. Por isso, quando estamos de bom humor, o mundo todo fica mais bonito e otimista; já quando estamos com raiva ou tristes, coisas ruins parecem acontecer aos montes.

Experiências e expectativas passadas

O que você já viu antes afeta sua percepção do que vê agora.

Se a mesma palavra aparecer duas vezes seguidas em uma frase, você talvez não perceba, porque tem experiência em como as frases são construídas, e as vê dessa forma.

Experiências passadas criam expectativas, e expectativas criam atalhos. O que realmente percebemos são esses atalhos, não as coisas por elas mesmas. Quando olhamos para algo, temos dificuldade de ver coisas que não esperamos ver.

Conjunto Perceptual

Os itens acima formam o que a psicologia chama de “Conjunto Perceptual”.  Formamos nossas percepções com base no que é útil, não preciso.

Quer um exemplo de como podemos perceber as coisas como conseguimos, e não como elas são? Lembra-se do vestido? Preto e azul ou branco e dourado?

Não pode estar todo mundo certo…

A propósito, ele é azul e preto:

Globo – Divulgação

Se nossas percepções podem mudar tanto com coisas simples, imagine como podem ir longe com algo tão complexo quanto nossa autoimagem.

Amplificando a imprecisão perceptiva: autoimagem

O modo como o mundo enxerga você afeta o que lhe acontece – se você consegue o emprego, o encontro, ou até o perdão por ter fechado alguém no trânsito.

Sabendo disso, sentimos o desejo de sermos bem percebidos, e por isso podemos nos motivar a nos ver bem. Afinal, como sabemos, vemos as coisas baseados em como estamos motivados a vê-las, não como elas realmente são.

AUTOIMAGEM

Se nossa autoimagem não é real, então o que vemos?

Se voltarmos ao nosso conjunto perceptual, podemos obter algumas respostas.

Somos extremamente motivados para nos vermos como queremos ver, seja isso preciso ou não. De repente, nos vermos de forma diferente abalaria nossa identidade e seria muito estranho. Grande parte da nossa saúde mental depende da autoimagem que temos de nós mesmos, com base no que queremos ser, junto com o que somos e o que temos medo de ser.

Na indústria do entretenimento, você encontra alguns exemplos bastante claros disso. Algumas pessoas se veem como modelo de beleza, convencidas de que são incrivelmente atraentes. Toda sua carreira é configurada para manter essa identidade de alguém que é bonito. Tentar tirar isso deles geraria uma reação violenta, pois significaria arrancar uma parte de sua identidade. E como a motivação influencia fortemente nossa percepção, um rosto bonito é tudo que eles veem ao olhar o espelho.

(Não se trata aqui de julgar pessoas a partir de sua aparência. Ao contrário, compreender o que acontece nos permite mais facilmente lutar ativamente contra a supervalorização de um conceito opressivo do que seja a beleza).

Vamos pensar no lado oposto. Durante algum tempo, atendi uma garota muito bonita. Desde criança, ela se via como pouco atraente e achava que as pessoas estavam brincando ou apenas sendo gentis quando elogiavam sua aparência.

Sua percepção não vinha de uma observação acurada de si. Ela via um rosto feio no espelho, diferente do rosto que as outras pessoas viam quando olhavam para ela.

AUTOIMAGEM

O que a motivava a ver-se assim?

Uma autoestima precária.

De maneira (muito) resumida, sua experiência de vida a tornara altamente motivada a achar que não tinha valor como pessoa, e ela buscava na aparência a confirmação dessa crença.

O exemplo acima nos dá uma pista importante…

A aparência não é a única parte da nossa autoimagem que vemos subjetivamente

Como vemos nossa personalidade?

Você sente que tem a idade que consta em seus documentos?

Pense comigo. Toda nossa experiência de vida até agora é sempre de uma versão mais jovem de nós. É impossível ter experiência de ser mais velho do que você é. Isso afeta a forma como nos vemos. Pessoas com mais de 40 anos sentem-se cerca de 20% mais jovens do que são, conforme um estudo de 2014. ).

Algumas pessoas se sentem mais jovens (pelo motivo acima) e essa sensação nunca passa. Às vezes, quando experimentamos traumas em uma idade precoce, partes de nós “param de se desenvolver”. Nesse caso, passar por certas vivências, que despertam aquele núcleo traumático, podem fazer-nos sentir muito mais jovens.

Superinteressante

O efeito Dunning-Kruger

Dadas certas características do mundo atual, não podemos deixar de abordar o chamado “efeito Dunning-Kruger”. Esse tipo de meta-ignorância (ignorar que ignora) diz que as pessoas menos competentes em algo tendem a inflar mais a crença em suas habilidades. Ou seja, são ignorantes demais para ter qualquer noção de que estão errados, o que os torna mais confiantes.   

Por outro lado, pessoas mais experientes e conhecedoras de determinado assunto são bem-informadas o suficiente para perceber suas falhas e lacunas de conhecimento, e por isso são menos confiantes. Isso poderia ter implicações grandes para a autoimagem.

Exceto por um detalhe: o “efeito” talvez não exista.

A modelagem matemática mais recente mostrou que as conclusões tiradas por Dunning e Kruger não refletiam o que de fato acontecia no experimento. De fato, parece que a maioria das pessoas superestimava suas habilidades, independentemente da capacidade real.

Talvez Dunning e Kruger não fossem tão espertos quanto pensavam.  

E agora, quer rever seu palpite sobre a nota de 0 a 10?

Então, quão precisa é nossa autoimagem?

Bem, considerando que tudo é percepção e não há critérios objetivos confiáveis para mensurar algo como a atratividade, a precisão de nossa autoimagem só pode ser avaliada por seu alinhamento em relação à visão que os outros têm de nós.

Em relação a isso, pesquisadores da Universidade de Toronto descobriram que as pessoas mais precisas em sua autoimagem são as de atratividade considerada mediana. 

O que isso significa?

Que se a sua nota foi muito baixa ou muito alta, é provável que você esteja em desacordo em relação com a forma como os outros lhe veem. Porém, se sua nota esteve mais próxima da média, você deve ter chegado muito perto. 😉


RECADO PARA VOCÊ

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