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Vida pós-parto: nasce uma mãe

Palavras-chave: pós-parto; puerpério; maternidade

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 05 de maio de 2022


Vida pós-parto

Os parâmetros vitais voltam aos valores normais – pressão arterial, glicose, frequência cardíaca, frequência respiratória, peso corporal etc.

Ufa! Agora é só apreciar essa sensação geral de alívio e bem-estar, não é mesmo?

Não é tão simples…

A expulsão do bebê pode funcionar como gatilho para trazer de volta à mãe afetos infantis, profundamente sedimentados na camada inconsciente de sua vida psíquica. Durante 40 semanas, aquela mulher teve intensas fantasias de controle em relação àquele “conteúdo” de suas entranhas. E agora, sem mais nem menos, perdeu…

Aquele “conteúdo”, que era tão exclusivamente seu, passa a ser tocado, paparicado e embalado por amigos e familiares; avaliam a aparência da criança e buscam semelhanças com outros entes da família; alguns, mais afoitos, já conseguem enxergar uma “agitação” ou então uma “calma” que lembram algum vovô ou titia.

E a nova mamãe fica ali observando o/a ex-habitante de seu ventre adentrar o e pertencer ao espaço público. É como se a vida lhe dissesse: “Perdeu, playboy!”.

E ainda tem gente que acha que o pós-parto é uma fase simples, tranquila…

pós-parto

Um processo que se inicia na gravidez

Uma gravidez suscita fantasias e concretiza desejos que têm aspectos conscientes e inconscientes.

Por exemplo, a confirmação da gestação pode provocar sentimentos ambivalentes – alegria e medo, raiva etc. Essa ambivalência pode ser percebida pela futura mamãe como rejeição à gravidez e ao bebê, levando a um sentimento de culpa.

Por outro lado, porém, a constatação de sua capacidade de gerar uma vida pode suscitar na mulher fantasias onipotentes (pensamentos “mágicos”) de que a gravidez é produto do seu desejo, e não de sua intervenção concreta na realidade.

Além disso, a gravidez é um momento de importantes reestruturações na vida da mulher e nos papéis que exerce. É nesse período que ela elabora sua passagem da condição de filha para a de mãe, o que, frequentemente, a leva a reviver experiências e afetos infantis. Também pode ser momento de reajustar seu relacionamento conjugal, sua situação socioeconômica e suas atividades profissionais.

Vale ainda ressaltar que o processo de “tornar-se mãe” envolve a aprendizagem de uma série de habilidades e competências. Nesse sentido, algumas condições podem favorecer essa aprendizagem da maternidade, como o acompanhamento pré-natal por profissionais da saúde e a existência de recursos sociais que garantam a permanência da mãe com o bebê nos primeiros meses de vida.

Nascimento e pós-parto

Além de ser o ápice da gravidez, o parto costuma iniciar mais um período de sentimentos intensos – e, mais uma vez, ambivalentes. Alegria, dor, medo… e saudade.

O nascimento do bebê implica a vivência de um luto por parte da mãe. Há, pelo menos, três importantes perdas envolvidas:

1. A perda do corpo grávido. A palavra grávida tem o significado (figurado) de cheia, plena, carregada.A mulher grávida é plenitude e “milagre” em execução. Depois do parto, ela pode já não ver o próprio corpo de modo tão especial – ao contrário, pode lhe saltar aos olhos a percepção das flacidezes, estrias e outras cicatrizes, levando a uma autopercepção pouco generosa;

2. A perda do corpo imaginado do bebê. Pode ocorrer que a aparência do bebê real não corresponda ao desejo da mãe. É comum haver uma idealização (paralela ao ideal de ego da mãe); nesse sentido, as expectativas da mãe podem ser confirmadas, superadas, mas também frustradas.

3. A “perda” da condição de filha (em especial, quando é o primeiro filho). O nascimento do bebê implica uma inversão de papéis, na qual há uma reestruturação da identidade: a filha agora se torna mãe. A (nova) função de cuidadora se sobrepõe à de ser cuidada. Isso ocorre em um momento de vida inédito e de especial fragilidade da mãe “recém-nascida”. Por isso, um desejo inconsciente frustrado da mãe (ser cuidada) pode provocar tristeza / mágoa.

Na dinâmica psíquica do pós-parto, o primeiro fenômeno que precisa ocorrer é a identificação da mãe com seu bebê. É importante que a mulher mergulhe nessa dualidade porque a criança nasce sem noção da diferenciação entre ‘eu’ e ‘não-eu’. Logo, ela será durante muito tempo a parte mais importante do mundo e a base para a criança estruturar seu psiquismo.

Como entendia D. W. Winnicott, espera-se que a mãe compareça à relação como parte madura, capaz de suprir (quase) todas as demandas do bebê, enquanto ele se encontra nesse estado fusional em que as coisas começam.

Assim, vivendo as experiências iniciais de seu bebê (real) junto dele, tolerando e compreendendo seu recém-nascido, surgirá o primeiro vínculo estabelecido pela criança com um “objeto externo”.

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PS1:

Quando meu filho nasceu, o médico que fez o parto avisou que levaria pelo menos uma hora para que o bebê chegasse no quarto. Primeiro, ele seria limpo e trocado, e passaria por alguns procedimentos, como testes de reflexos.

Era madrugada e eu não havia jantado. Saí do hospital e fui até uma lanchonete 24 horas do outro lado da rua. Enquanto esperava meu pedido, comecei a pensar, pela primeira vez, no que havia acabado de acontecer.

É curioso como um momento absolutamente planejado e previsto pode trazer sentimentos surpreendentes. Ser responsável pela geração de uma nova vida mexeu com uma porção muito íntima da minha singularidade.

Apesar dos inúmeros pensamentos que me vieram, o elemento que mais recordo até hoje é uma sensação: a plenitude. Poucas vezes – antes ou depois – tive a mesma impressão de que tudo valia a pena.

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PS2:

Hoje, no Brasil, cerca de 11,5 milhões de mães criam seus filhos sem participação do pai da criança – 15,3% do total.

É imprescindível que políticas públicas sejam empreendidas para que essas mulheres recebam proteção social.


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