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A ciência identificou o segredo para envelhecer sozinho bem

Palavras-chave: envelhecer sozinho; envelhecer bem; velhice; idosos

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 16 de julho de 2022


Idosos que moram sozinhos são alvos frequentes de preocupação, e até de pena. O estereótipo é de pessoas solitárias, sem ninguém com quem contar, provavelmente deprimidas. Mas, será que corresponde à realidade?

Uma equipe chefiada pela cientista social holandesa Dra. Maja Djundeva tentou dar resposta a essa pergunta por meio de uma ampla pesquisa. O resultado está no artigo “Is living alone ‘aging alone’? Solitary living, network types, and well-being”, publicado em 2019 no Journals of Gerontology.

envelhecer sozinho
Que fatores favorecem o envelhecer sozinho e bem?

A pesquisa sobre envelhecer sozinho

Público: mais de 53.000 pessoas, com idade acima dos 50 anos, de 16 países europeus.

Método: pediram que os participantes nomeassem pessoas com quem tinham conversado coisas importantes nos últimos 12 meses. Para cada confidente, os participantes descreveram o tipo de relação que tinham com a pessoa, se o contato era diário e se moravam próximas (até três quilômetros de distância). Também indicaram o quão satisfeitos estavam com essas relações. Finalmente, deram informações sobre sua saúde, incluindo quaisquer limitações funcionais, seu nível de satisfação com a vida e seu bem-estar mental.

Tipos de redes sociais para envelhecer sozinho

Os pesquisadores identificaram a existência de quatro tipos de redes sociais entre idosos que moram sozinhos:

1. Redes Restritas: 34%

Idosos com redes restritas tinham poucos parentes (ou nenhum) em suas redes. Não encontravam os membros de suas redes sociais com grande frequência, e poucos deles moravam nas proximidades.

2. Redes orientadas a crianças: 29%

Idosos com esse tipo de rede dependiam principalmente de crianças para se conectarem socialmente. Suas redes eram pequenas e incluíam poucas pessoas que moravam nas proximidades. Em geral, não tinham muito contato com membros de sua rede social.

3. Redes orientadas a amigos: 22%

Como o nome indica, idosos com esse tipo de rede eram especialmente propensos a ter amigos em suas redes. Eram menos propensos a ter parentes em suas redes, ou contato diário com membros da rede.

4. Redes Diversas: 14%

As redes diversas eram grandes e incluíam parentes e não-parentes. Idosos com essas redes frequentemente tinham contato diário com seus membros, e um número considerável dessas pessoas moravam nas proximidades.

Redes Sociais em Diferentes Regiões da Europa

A Hungria teve a maior proporção de idosos morando sozinhos com redes diversas (mais de 20%). Nos demais países, a proporção foi semelhante, em torno de 14%.

As redes baseadas em amigos foram mais encontradas em nações do Oeste e do Norte da Europa, com taxas por volta dos 30% (acima da média europeia, de 22%) em países como Suíça, Bélgica, Dinamarca e Suécia.

Em nações do Leste Europeu, como Hungria, República Tcheca e Polônia, pessoas idosas que moravam sozinhas são especialmente propensas às redes orientadas a crianças. As taxas nessas nações são superiores a 40%, enquanto a média europeia fica em 29%. Além disso, em média, em todas as 16 nações, idosos que moram sozinhos são mais propensas a ter uma rede social orientada a crianças se moram em áreas rurais.

Pessoas idosas que moram sozinhas nos países do Leste e Sul da Europa são mais propensas a ter redes sociais restritas do que as dos países do Norte e Oeste europeu. Por exemplo, a Eslovênia e a Itália têm as maiores taxas de redes restritas, com 51% para a Eslovênia e mais de 40% para a Itália, enquanto a média entre os 16 países estudados é de 34%.

Níveis de Saúde e Educação de Idosos com Diferentes Redes Sociais

Idosos que moram sozinhos com redes orientadas a amigos ou redes diversas são especialmente propensos a ter melhor saúde em relação àqueles com redes restritas. Idosos com redes orientadas a amigos também se destacam pela baixa probabilidade de ter limitações funcionais e pela maior probabilidade de ter alta escolaridade. Aqueles que tinham redes orientadas a crianças não eram mais ou menos saudáveis do que aqueles com redes restritas. Eram menos propensos a ter alto nível escolar, no entanto.

Envelhecer sozinho ou acompanhado: quem está mais satisfeito com sua vida e sua rede social?

Idosos que moram sozinhos e têm redes diversas são mais satisfeitos com suas redes sociais e com suas vidas em relação àqueles que vivem acompanhados. A proporção de idosos deprimidos em ambos os grupos é a mesma.

Idosos que moram sozinhos e têm redes orientadas a amigos são igualmente satisfeitos com suas redes e igualmente propensos à depressão em relação aos idosos que moram acompanhados. São, no entanto, menos satisfeitos com suas vidas.

Idosos que moram sozinhos e têm redes orientadas a crianças são mais satisfeitos com suas redes sociais do que idosos que vivem acompanhados. São menos satisfeitos com suas vidas, mas igualmente propensos à depressão.

Idosos que moram sozinhos e têm redes restritas são menos satisfeitos com suas redes sociais, menos satisfeitos com suas vidas e mais deprimidos em relação aos idosos que moram acompanhados.

Solteiros vs. casados

Em relação a esse assunto, há evidências de países em outros estudos sobre envelhecer sozinho.

Nos EUA, um estudo com 530 pessoas com 65 anos ou mais descobriu que pessoas solteiras (que nunca se casaram) vivem melhor do que as pessoas que se casaram, pois têm vidas sociais mais ativas, têm pessoas que as ajudam quando precisam e são mais otimistas sobre o futuro.

Estudo australiano que incluiu apenas mulheres na casa dos 70 anos verificou que idosas solteiras sem filhos estão tão bem ou até melhor do que mulheres que são ou foram casadas, com ou sem filhos, em quase todos os quesitos.

No presente estudo, pessoas idosas que moram sozinhas e sempre foram solteiras aparecem mais propensas do que as que já foram casadas (divorciadas ou viúvas) a ter redes restritas. Aliás, pessoas com redes restritas são menos satisfeitas com a vida e com suas redes sociais e mais propensas à depressividade.

No entanto, quando os pesquisadores olharam para as ligações entre estado civil e bem-estar, descobriram pouca importância. Aparentemente, as pessoas solteiras não estão piores do que as divorciadas ou viúvas, apesar de serem mais propensas a ter redes sociais restritas.

O que importa, mais do que o estado civil, é ter pessoas com quem você pode conversar sobre assuntos importantes. Embora pessoas solteiras sejam mais propensas a ter redes sociais restritas (o que implica terem poucos confidentes), algumas delas têm redes diversas, orientadas a amigos ou a crianças. Mesmo as pessoas solteiras com redes restritas podem ter um ou alguns confidentes, e isso pode ser suficiente para protegê-los dos riscos associados a uma rede restrita.

Há mais homens idosos com redes sociais restritas do que mulheres. Mulheres solteiras são, em média, mais satisfeitas com a vida do que homens na mesma condição.

Perguntas não feitas neste estudo

Os 53.000 idosos avaliados moravam sozinhos, mas o estudo não se interessou em saber se essa condição era voluntária ou não. Eles falaram sobre as pessoas com quem podiam contar, mas não lhes foi perguntado se gostariam de ter mais (ou até menos) dessas pessoas em suas vidas.

Envelhecer sozinho é uma experiência de um tipo para pessoas que amam ter um lugar próprio e esperam continuar sozinhas, e de outro, bem diferente, para pessoas que acham a vida solo angustiante. Da mesma forma, algumas pessoas podem preferir ter um (ou até nenhum) confidente a ter vários.

Além disso, os resultados são sempre baseados em médias, o que significa que existem sempre exceções. Embora pessoas com redes sociais restritas não estejam, em média, tão bem quanto as pessoas com outros tipos de redes sociais, algumas pessoas com redes sociais restritas estão muito bem, e algumas pessoas com redes diversas, orientadas a amigos ou crianças, não estão.

Referência

Maja Djundeva, PhD, Pearl A Dykstra, PhD, Tineke Fokkema, PhD, Is Living Alone “Aging Alone”? Solitary Living, Network Types, and Well-Being, The Journals of Gerontology: Series B, Volume 74, Issue 8, November 2019, Pages 1406–1415.


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