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Automutilação em adolescentes: sinais de alerta para os pais

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Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 10 de novembro de 2022


[ALERTA GATILHO: Esse texto aborda questões sensíveis e por isso pode ser desaconselhável para algumas pessoas: autolesão / automutilação / suicídio]


Em publicações especializadas, profissionais da saúde mental têm apontado um preocupante aumento do número de adolescentes procurando atendimento de emergência por automutilação.

É fundamental que pais, professores e demais cuidadores aprendam mais sobre o assunto, para reconhecer, compreender e intervir em casos de automutilação.

AUTOMUTILAÇÃO
A compreensão dos pais e da sociedade é chave para prevenção da automutilação

A invisibilidade da automutilação em adolescentes

Machucar a si mesmo – ou pensar em se machucar – é um sinal de intensa dor emocional – raiva, tristeza, memórias desagradáveis ou circunstâncias difíceis. A automutilação é um mecanismo de enfrentamento difícil de detectar; a maioria dos jovens que se automutilam escondem esse comportamento (e seus efeitos) de amigos, familiares e professores. A facilidade de ocultar marcas e lesões, aliada à falta de consciência social sobre o tema, dificulta a identificação dos sinais de alerta.

Sinais mais óbvios de automutilação em adolescentes

Estes são alguns dos sinais de alerta de automutilação / autolesão a serem observados, especialmente em adolescentes:

  • Ocorrência frequente de lesões, como cortes, queimaduras e arranhões
  • Uso de calças e blusas com mangas compridas, mesmo em clima quente
  • Sinais de sangue em toalhas ou roupas
  • Começar repentinamente a lavar as próprias roupas
  • Começar repentinamente a tirar o próprio lixo
  • Afastamento de amigos, família ou atividades sociais

O que é a automutilação em adolescentes?

A automutilação, também conhecida como autolesão não suicida (ALNS), ocorre quando alguém deliberadamente machuca a si mesmo. As formas mais comuns são cortar a pele, bater ou queimar partes do corpo (o corte é o meio mais comum).

O corte frequentemente (embora nem sempre) ocorre nos braços, pernas, região genital ou abdômen. Os jovens podem usar uma variedade de objetos e métodos para se automutilar, incluindo lâminas de barbear, tesouras, facas ou qualquer objeto perfurocortante.

Alguns adolescentes podem deixar suas feridas visíveis para chamar a atenção, como um pedido de ajuda, mas a maioria esconde suas marcas ou dá explicações falsas sobre como elas aconteceram.

Outras formas de automutilação em adolescentes incluem

  • Coçar com força
  • Arrancar fios ou mechas de cabelo (tricotilomania)
  • Cutucar feridas já existentes
  • Esculpir símbolos ou palavras na pele
  • Perfurar a pele com objetos pontiagudos, como agulhas ou grampos de cabelo
  • Ingerir substâncias tóxicas, como alvejante ou detergente

Automutilação em adolescentes como mecanismo de enfrentamento

Para a maioria dos adolescentes que recorrem à automutilação, o objetivo principal do comportamento não é realmente prejudicar ou punir a si mesmos, como pode à primeira vista parecer. Em vez disso, trata-se mais frequentemente de um mecanismo de enfrentamento para lidar com sentimentos intensos e negativos, como raiva/ódio, desespero, vazio ou culpa.

Ao lesionar-se, o jovem experimenta uma espécie de descarga desses sentimentos, que provoca um alívio. Por isso, o desejo de mutilar-se pode se tornar recorrente. Do ponto de vista cerebral, o ciclo da automutilação se assemelha a formas clássicas de vício:

sentir emoções negativas intensas – procurar desesperadamente uma saída ou maneira de parar a dor – recorrer à automutilação para descarga de sentimentos – alívio (temporário) – sentir culpa ou vergonha por se automutilar – acumular sentimentos negativos novamente – reiniciar o ciclo.

Os adolescentes são particularmente suscetíveis a este ciclo. O cérebro jovem tem um número maior de vias neurais sensíveis à dopamina, o que significa que a busca pelo ciclo da automutilação pode ser mais intensa entre os adolescentes. O ciclo pode progredir para formas adicionais de autolesão, incluindo uso de substâncias e ideação suicida.

Qual o perfil de quem se automutila?

Dados obtidos entre adolescentes nos EUA mostraram que 30% das garotas e 10% dos garotos admitem se machucar intencionalmente a cada ano. Desde 2015, as taxas de autolesão aumentaram 166% para meninas entre 10 e 14 anos e 62% para meninas entre 15 e 19 anos. A pesquisa também apontou que as adolescentes com depressão persistente são mais propensas a recorrer à automutilação.

A taxa é desproporcional entre os membros da comunidade LGBTQIA+. Cerca de 47% dos indivíduos LGBTQIA+ cometerão um ato de automutilação durante a vida – mais que o dobro da taxa de pessoas não LGBTQIA+. Estressores relacionados ao bullying, sensação de não aceitação pela família e pela sociedade, entre outros efeitos, criam uma combinação de dor psíquica e desamparo para essa população.

No entanto, é importante dizer que adolescentes de qualquer orientação ou identidade sexual, status socioeconômico, gênero ou etnia se envolvem em práticas de automutilação.

Ligação com o suicídio

Embora a automutilação nem sempre seja acompanhada de ideação ou intenção suicida, a pesquisa encontrou alta correlação entre esses comportamentos. Estima-se que 70% dos adolescentes que se automutilam tentaram o suicídio pelo menos uma vez e 55% tentaram o suicídio mais de uma vez.

A natureza recorrente da automutilação torna mais provável que os jovens amplifiquem seus comportamentos, incluindo ações ainda mais prejudiciais e arriscadas, que podem incluir tentativas de suicídio.

Automutilação digital

A automutilação digital é uma modalidade recente, mas que vem crescendo. Ela se caracteriza pela postagem, envio ou compartilhamento on-line de conteúdo que mostra a pessoa em práticas de autolesão, em geral anonimamente. Como muitos adolescentes passam boa parte do tempo na internet, por vezes sem supervisão dos pais, é indispensável que as famílias estejam cientes desse tipo de autolesão.

A violência costuma ter popularidade on-line, o que significa que as postagens relacionadas a automutilação e suicídio (apesar dos esforços das plataformas para monitorá-las e censurá-las) tendem a ter grande alcance. Isso torna mais provável que qualquer adolescente tenha contato com conteúdo sobre automutilação, o que pode ser um perigoso gatilho.

Aos pais e cuidadores: como agir?

Descobrir que sua filha / seu filho adolescente está se lesionando pode ser bastante doloroso. Nesse momento, todas as emoções são legítimas. Lembre-se de que ela / ele provavelmente está sentindo algumas dessas emoções também.

O primeiro passo é criar um espaço seguro para o diálogo. Mantenha a conversa aberta, fluida e sem julgamentos. Deixe claro que tudo que ela / ele sente é válido e pode ser expresso. Mostre que a / o ama e que não quer que sofra. Tente ouvi-la / o dizer como está se sentindo, mas compreenda e afirme que não há problema se não houver palavras ainda.

Alguns adolescentes podem dissociar psicologicamente após um episódio de automutilação. Se este for o caso, vai parecer que ela / ele está meio aéreo e fora de si. Diga calmamente o nome dela / e em voz alta e seja paciente até que ela / ele pareça estar mais presente. Enquanto isso, preste os primeiros socorros a qualquer possível ferida e avalie se é necessário atendimento médico.

O próximo (e imprescindível) passo é procurar apoio profissional em saúde mental, tanto para ela / ele, como para você. Além de sinalizar a possibilidade de problemas de saúde mental mais graves, a automutilação deve ser enfrentada em conjunto por toda a família.


RECADO PARA VOCÊ

Se você precisa de orientação para lidar com alguém próximo em relação à automutilação, pode clicar no botão abaixo para agenda sua consulta com um especialista.

⚠️ Atenção: Este site não oferece tratamento ou aconselhamento imediato para pessoas em crise suicida. Em caso de crise, ligue para 188 (CVV) ou acesse o site http://www.cvv.org.br. Em caso de emergência, procure atendimento em um hospital mais próximo.

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