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O paradoxo da felicidade: por que me sinto bem lembrando de um passado ruim?

Palavras-chave: felicidade; paradoxo; memória

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 03 de janeiro de 2023


Você olha para seu passado e lembra com carinho – talvez até com saudade – de um certo período. Porém, você sabe que, naquela época, as coisas não estavam bem. Você estava triste, ou angustiado, mentalmente exausto etc. A vivência não foi positiva quando aconteceu, mas agora parece uma memória feliz.

O que isso significa? Você estava bem naquela época? Ou não?

felicidade

Veja a história que ouvi de uma paciente outro dia:

Quando a gravidade da pandemia diminuiu e as pessoas começaram a sair de casa, ela foi encontrar um amigo em um café. Até então, como muitos de nós, estava ansiosa por sair de novo, estar num ambiente público, conversar e ver pessoas novamente “ao vivo”.

Porém, o que aconteceu no dia foi completamente diferente.

Ela se sentiu pior do que em casa.

Não conseguia prestar atenção na conversa do amigo, e não estava com vontade de falar. Não queria comer. Não queria tomar café.

Ela só queria tirar de dentro de si aquela sensação ruim. Queria voltar para casa.

Achou que sair de casa a faria sentir-se bem. Mas se enganou.

Sentada naquele café, vagamente atenta ao burburinho em sua volta, teve uma experiência terrível, da qual se lembra vividamente.

Vários meses depois, enquanto me contava situações diversas, percebeu-se animada ao trazer de volta esse dia específico. Observando-o em sua memória, se sentia bem. Era como se estivesse relembrando um dia muito divertido!

Felicidade e memória: o que está acontecendo?

Uma maneira de olhar para essa questão é pelas lentes do estado mental atual:

Avaliamos os momentos que vivemos tendo como critério nosso estado mental atual. Ou seja, se estamos nos sentindo bem, tendemos a perceber vivências anteriores desagradáveis de modo mais benevolente; por outro lado, se estamos mal, tendemos a perceber boas experiências com amargura.

(Do mesmo modo, se estamos bem, tendemos a perceber experiências boas com mais carinho e, se nos sentimos mal, tendemos a perceber experiências ruins como ainda mais sofridas.)

No caso da paciente, ela descreveu a experiência passada no café como claramente desagradável. Então, quando me contou, ela:

1. Estava se sentindo bem, ou;

2. Estava se sentindo pior do que naquele dia no café.

Pois bem. Observando seu estado mental atual, minha paciente não se sentia “bem”, o que poderia significar que estava pior do que há meses. No entanto, isso também não lhe fazia sentido – sentia que estava melhor do que naquele dia infeliz.

Felicidade e memória: então, o que isso significa?

1. Ela julgou mal sua magnitude emocional daquele dia e está agora pior do que no café – ou seja, sua percepção do próprio estado emocional é imprecisa;

2. Ela não consegue discernir seus estados mentais, e agora está se sentindo bem. Mas só vai perceber isso daqui a algum tempo.

3. Não precisamos estar nos sentindo bem em um determinado momento para sermos nostálgicos em relação a esse momento.

De qualquer forma, o que quero trazer para a reflexão com essa lembrança é o quanto um conceito de “felicidade” pode ser algo bastante complicado.

Se ser feliz não é exatamente fácil, ao tentar entender a felicidade nos sentimos como um cachorro que persegue o próprio rabo.


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