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Efeito rolagem infinita — Como o design digital pode hackear seu cérebro

Palavras-chave: rolagem infinita; pergaminho infinito; scroll infinito; paginação; design digital; mídias digitais; redes sociais

Por Psicólogo Rodrigo Giannangelo | Publicado em 16 de maio de 2022


A chamada “rolagem infinita” é uma técnica de design usada em serviços digitais com o objetivo de aumentar o engajamento dos usuários.

Por exemplo, você termina o episódio de uma série e a Netflix faz o próximo começar automaticamente. Você assiste a um vídeo no Tik Tok, e o próximo está logo abaixo. Você ouve uma música no Spotify, e a próxima… você já sabe. A rolagem infinita tenta evitar que você reflita se quer continuar ou não consumindo aquele conteúdo. Você abre o Instagram só para pegar o contato de uma empresa e, quando percebe… passou meia hora ali.

Na era digital, as mídias sociais são uma parte cada vez mais importante do nosso cotidiano. Desde os primeiros lançamentos do ICQ, Orkut, MySpace, até seus sucessores atuais, esses serviços foram aprimorados em todos os recursos que se possa imaginar — conectividade, velocidade, design, utilidade etc.

Com o passar do tempo, essas melhorias implicaram um aumento exponencial do número de usuários – e pessoas cada vez mais engajadas. Desde então, a lógica desses aplicativos (os famosos “algoritmos”) tenta prender nossa atenção. Para isso, implementam técnicas de design mais atrativas para capturar-nos em meio ao oceano de possibilidades da internet.

Na pandemia, a internet possibilitou trabalhar à distância, receber entregas, comunicar-se com amigos e familiares etc. E isso causou um boom na chamada “economia da atenção”, porque todo mundo estava mais tempo diante de telas.

Rolagem infinita

A rolagem infinita é uma técnica de design de produtos digitais que carrega mais conteúdo à medida que o usuário rola a página para baixo, numa sequência que parece sem fim. É usado por serviços digitais populares como Twitter, Tik Tok, Facebook e Instagram.

rolagem infinita

Rolagem infinita — Origens

A rolagem infinita foi criada e desenvolvida por Aza Raskin, em 2006, enquanto trabalhava na Humanized, uma pequena empresa de interface ao usuário.

A ideia era substituir um layout conhecido como paginação, abordagem tradicional que divide grandes listas em várias páginas menores, por uma mais intuitiva. A paginação permite que os usuários selecionem conteúdos específicos, mas os força a “pensar demais” sobre o que querem ver.

rolagem infinita
Rolagem infinita vs Paginação

Com esse novo recurso, os usuários podiam simplesmente rolar para cima e para baixo, através de postagens ou artigos, em vez de clicar em páginas. Assim, eliminando a necessidade de cliques, a rolagem tornava o conteúdo mais facilmente acessível aos usuários.

Com grande poder, vem grande responsabilidade

Raskin certamente não previu todas as consequências que sua invenção traria.

A rolagem infinita permite que os usuários consumam um serviço digital sem perceber quanto conteúdo já consumiram.

Assim como os cassinos não permitem a entrada de luz natural, nem têm relógios nas paredes, para que os frequentadores percam a noção do tempo, as redes sociais preferem que você não lembre que há uma vida fora da tela.

Raskin foi destaque no documentário “O Dilema das Redes” (The Social Dilemma), da Netflix, que discute como as empresas de mídia social tentam ajustar seus algoritmos para alcançar mais engajamento de seus usuários. Como ele diz, “se você não dá tempo ao cérebro para se conectar aos seus desejos, você apenas continua rolando a tela para baixo”.

Por que é tão viciante?

Um recurso simples, destinado a melhorar a experiência online, rapidamente se tornou um perigo.

Pesquisas já mostraram que os desenvolvedores projetam intencionalmente plataformas de mídia social viciantes. Isso acontece porque o design explora três atalhos mentais conhecidos e importantes:

– O primeiro deles é o viés da unidade. De acordo com essa tendência, somos naturalmente inclinados a consumir as coisas até que elas acabem. Na situação da rolagem, continuamos navegando indefinidamente, pois a quantidade de conteúdo oferecido é infinita, e, portanto, nunca chegamos ao final.

– O segundo fator é nossa predisposição a buscar previsibilidade e padrões. No design da rolagem, eles quase não existem – sempre surge algo novo, basta atualizar a página. Então, continuamos rolando a tela em um fluxo contínuo (esse mecanismo é similar ao que ocorre em outros vícios, como drogas, álcool ou apostas).

– Por último, mas não menos importante, a formação de hábitos de uso é facilitada pelo modelo Hook — gatilho, ação, recompensa e investimento – que gera loops de feedback que mantêm os usuários ativos. Quando você recebe uma notificação, se sente obrigado a verificar seu smartphone, onde é recompensado com um like ou comentário, o que motiva a repetir esse comportamento mais vezes no futuro.

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Modelo Hook

Encontrando liberdade no final da rolagem infinita

Em suma, a rolagem infinita surgiu para melhorar a experiência do usuário — e acabou se tornando um recurso que aumenta drasticamente o tempo que dedicamos às plataformas e aplicativos.

Projetar experiências do usuário on-line implica uma grande responsabilidade, pois influencia o comportamento das pessoas e o modo como usam seu tempo. A rolagem infinita é amplamente utilizada, embora seja, na melhor das hipóteses, viciante, e, na pior das hipóteses, prejudicial e desumana.

As empresas que utilizam esse tipo de técnica para reter a atenção dos usuários devem ter o compromisso ético de oferecer formas de conscientização. É nesse sentido que surgem diversas propostas de regulamentação das mídias digitais, no Brasil e em outros lugares do mundo. O assunto é polêmico, e contrapõe a liberdade de expressão à “liberdade de atenção”.

Por exemplo, o IOS e o Android realizaram ações nessa direção lançando as funções Tempo de uso e Bem-estar Digital, respectivamente, que permitem aos usuários monitorar o tempo que passam em seus telefones. No entanto, sem uma consciência prévia do usuário sobre o problema, essas melhorias podem não ser tão úteis.

Por isso, da próxima vez que você se encontrar preso em um loop de consumo digital — seja no Instagram, Tik Tok ou qualquer outro — tente estar ciente da quantidade de tempo que você está gastando. Tente se perguntar se vale a pena – ou se era sua intenção original. Se a resposta for ‘não’, feche o aplicativo. Com um pouco de atenção e autocontrole, você pode se libertar das garras da rolagem infinita e recuperar seu tempo e seu foco.


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